Discernimento Espiritual #3
- André G. Figur
- 12 de dez. de 2018
- 11 min de leitura

Espírito.
Infelizmente é aqui que se encontra nossa deficiência como mortais: Graças ao pecado de Adão, todos fomos desligados de Deus, a conexão do nosso espírito ao Espírito de Deus morreu. E graças a essa quebra de conexão, nós que eramos imortais, uma vida em linha reta, nos tornamos mortais, uma vida cíclica.
Depois disso ficamos com uma parte de nós atrofiada. Sem uma parte de nós que cumpre o seu papel perfeitamente. Nos tornamos como um celular com a placa de rede queimada, que não recebe nem faz ligações, e que não consegue acessar internet, e fica isolado em si mesmo. Assim também o homem, que antes tinha uma conexão com o que é divino e celestial, ficou isolado em si mesmo, se tornando apenas terreno e carnal.
Todo ser humano tem um espírito humano, mas esse espírito humano é incapaz de se conectar com Deus. No entanto, ele ainda reserva em si mesmo algumas características do que um dia o espírito humano foi, por exemplo: Ele continua buscando algo para adorar, algo que lhe seja objeto de culto, fazer de algo o centro de sua existência.
Naqueles que não creem em nem um tipo de religião convencional, mas preferem se reservar ao rótulo de “ateus”, sejam “agnósticos” ou não, na verdade tornaram seu próprio EGO o objeto de culto. Não que os religiosos de qualquer religião, mesmo cristã, não tenham feito o mesmo, na verdade todo homem “natural”, está fadado a cultuar o próprio EGO. Como dito no artigo anterior, existem muitas camadas de engano sob as quais nos escondemos, nos justificamos e usamos para dizer o contrário: Que não, não somos egocêntricos.
Uma pessoa que pensa ser boa, seja ela religiosa, ou não, ou que pensa ser boa em virtude da sua religião, ou não, ela usa como justificativa de que não é egocêntrica nem meramente egoísta, porque ela “faz o bem ao próximo”, porque ela faz sextas básicas para famílias carentes, porque ela faz aquela doação pro abrigo de animais, ou pro hospital da cidade, ou para aquela ong que quer salvar o mundo recolhendo canudos de plástico, ela diz que é “boa”.
Talvez nem diga que é, mas não assume que é governada pelo seu ego. Talvez ela até tenha uma ONG que de fato está empenhada em fazer algo relevante para a sociedade, que a maioria de nós sabe que deveria mudar, mas não faz nada. Mesmo assim, ela é guiada pela sua própria vontade, pela vontade do seu EGO, e disso ninguém tem como escapar. A menos que nasça de novo.
Porque, o que uma pessoa faz, pensando ela ser boa, o faz por uma necessidade pessoal de cumprir com a sua consciência. Se não o faz para se sentir bem, pelo menos para não se sentir mal.
Quem é responsável por essa “consciência humana”, é nosso espírito humano. Embora ele não seja mais perfeito, ele traz uma série de instruções morais e éticas, conceitos de “certo e errado” para todo ser humano. Não me refiro aqui ao que é meramente cultural, como monogamia ou poligamia, monoteísmo ou politeísmo, comer com as mãos ou comer com talheres ou hashis (pauzinhos). Mas de coisas que independente de toda cultura, raça, cor, tribo e nação, é inato ao homem: Não matar, não roubar, não mentir, proteger o que é seu… Etc.
Além da característica de uma consciência inata sobre um mínimo de certo e errado, o espírito manifesta outra característica: razão.
Enquanto sensações tocam nosso corpo, sentimentos nossa alma, a razão é o que toca nosso espírito, é por meio dela que recebemos no nosso espírito.
Na verdade existe muito mais a respeito do nosso espírito a ser considerado, como por exemplo o fato de que enquanto nosso espírito estava conectado a Deus eramos imortais, mas quando fomos desligados nos tornamos mortais, isso fala de vida, e um tipo específico de vida, a vida de Deus, e ela em nós. Mas voltemos a razão.
Não falo apenas da parte que toca o aprendizado pela nossa razão, mas também da capacidade que nossa razão têm de ignorar corpo e alma e às vezes, nos salvar. Basta pensar em quando estamos em perigo. É provável que você não tenha percebido isso ainda, justamente por causa do medo, mas em algumas situações estamos em perigo de vida real, sentimos dor, sentimos medo, sentimos os sentidos falharem por causa deste medo, mas de repente a razão rompe através do medo, e sabemos o que fazer.
Me lembro quando era criança, eu fui atravessar uma extensão de água no alagado de uma barragem de mais cem metros de um lado para o outro, a nado, era muito fundo, mas eu sabia nadar. No meio do caminho nadando eu cansei, e a perna deu câimbra. Tive muito medo de morrer afogado por alguns instantes, ao debater as pernas procurando um lugar para apoiar meus pés tocaram os galhos de uma árvore que estava no fundo do lago, e aí o medo ficou maior pois imaginei que profundidade devia haver para caber toda uma árvore de baixo d’água. Quando não sabia o que fazer e o medo me deixava sem fôlego, a razão brotou: - Boie. Apenas encha os pulmões de ar e boie, a água cedo ou tarde te levara para a borda. Controlei a respiração de um jeito que ao respirar não tirava todo ar de dentro dos pulmões pra não afundar, e esperei, alguns minutos depois eu estava na borda do outro lado.
Isso é apenas um exemplo, do que poderíamos chamar de “reflexo da razão”, reflexo no sentido de que se manifestou naturalmente, na hora certa, o tipo de coisa que chamamos de milagre (cá entre nós, foi mesmo), pois ela não surgiu porque invoquei a razão em um momento de pânico, ela simplesmente veio. Mas isso ainda está longe de ser o “todo” a respeito da razão e de como o espírito funciona, apenas mostra a distinção entre carne, alma, e espírito. A carne deu câimbra, a alma entrou em pânico, mas o espírito deu uma resposta racional.
Para o homem natural esse tipo de acontecimento, ou esse tipo de resposta da razão, é tomado como um milagre. Não me refiro ao sentido divino de milagre, mas a natureza extraordinária do milagre.
O homem natural vive pela direção da sua alma, e toma essas manifestações de razão como algo místico na maioria das vezes, ou em tempos modernos, como um “insight”, uma “boa ideia”, um “vento de inspiração”, ou “fruto da sua genialidade”.
Talvez esteja se perguntando, se eu por acaso me esqueci de pessoas que são essencialmente racionais, que demonstram pouca ou nem uma manifestação das suas emoções, e parecem decidir tudo com base na lógica, no racionalismo.
Pois não as deixarei de fora, elas também são levadas por suas almas, dirigidas pelo EGO, mas diferente de outros, desenvolveram melhor o uso de algumas características que o espírito nos dá, como a razão.
Na verdade as pessoas que se doam mais a intelectualidade, a busca de conhecimento, de informações lógicas e abstratas, e usam o raciocínio para tudo, acabam por desenvolver melhor essa parte que toca nosso espírito.
Eu diria, que assim como a dinâmica do corpo são sensações, da alma são emoções, nosso espírito recebe pela razão. E não me refiro apenas ao habito de racionalizar tudo, mas tudo que razão pode abranger, partindo da obtenção de mais informação, a organização dessa informação para se tornar conhecimento, o conhecimento se tornar uma síntese, e ser digerido como princípio ou fundamento para nossa razão.
E é esse processo, de obtenção, organização e digestão de informação que nosso espírito, quem somos, é esculpido. Mesmo que nosso ego queira nos conduzir pelas nossas emoções, pelos nossos sentimentos, pelo que nos dá prazer, é aquilo que fundamentamos no nosso espírito que vai definir os limites e a forma de atuação do nosso ego, e de nossa alma.
É natural que aquilo pelo qual fomos ensinados quando crianças, que é errado, ou de alguma forma reprovável, não venhamos a fazer. Como por exemplo algumas regras de etiqueta: Não comer com as mãos, não falar de boca cheia, não interromper os mais velhos quando conversam, etc… São coisas que aprendemos cedo, que deu forma à quem somos (num nível raso, mas ainda sim em algum nível), e que mesmo que sejamos levados pela nossa alma a abandonar essas coisas, por fim, nossa razão determinará se vamos quebrar essas convenções ou não. E na maioria das vezes, ainda que quebremos a etiqueta conscientemente em determinado momento, em outro, voltamos à prática da etiqueta inconscientemente. Isso porque está bem fundo em nós, o conceito de etiqueta foi concebido com a razão.
Talvez você também esteja conjecturando que isso se aplique a outros conceitos de certo e errado como matar, roubar e mentir, mas esses conceitos não são ensinados, não temos que “concebê-los” pela razão, como humanos os temos de forma inata. Inclusive, esse conceito básico de certo e errado no homem, faz parte de sua natureza, e é por meio dela, que o homem natural tem as primeiras percepções a respeito de um Deus criador, da justiça e do pecado.
Ainda que em cada cultura, muitos conceitos mudem, de uma para outra, existe um nível mínimo de “consciência moral”, que todas as culturas humanas compartilham, e é a partir dessa consciência que começamos a “suspeitar” que “existe algo mais”, do que apenas a dimensão física, material e terrena. (C.S. Lewis, no livro “Cristianismo Puro e Simples” dá uma verdadeira aula a respeito disso.)
Mas por outro lado, todo tipo de conhecimento que vamos adquirindo, é pela razão que o recebemos: matemática, ciência, filosofia, história, geografia, artes…
Tudo que aprendemos na escola, e depois, na escola da vida, é através da razão, e se torna um princípio ou fundamento, em nosso espírito.
Se não for por ele, nem nossa alma, nem nosso corpo é capaz de aprender, pois estão limitados apenas a aceitar ou rejeitar, a gostar ou desgostar. Todos que passaram pelo processo do ensino e aprendizagem, sabem o quanto nossa alma desgosta de sentar numa sala de aula e ter que ouvir aquele monte de informações que não tem nem uma graça.
Do que depender da nossa alma, não aprenderemos, mas como (pelo menos na minha geração) corremos risco de sermos castigados ou de apanhar quando os boletins escolares chegarem, forçamos nossa razão absorver todo aquele assunto chato que está diante de nós.
O corpo por si só, vai evitar o que lhe agride, e isso não é aprendizado, é apenas “auto preservação”, a alma vai evitar o que não lhe dá prazer, e sempre optar pelo que lhe der mais prazer, e isso não é aprendizado, é sensualidade. Mas o que nos faz capazes de olhar para as coisas independentes do que sentimos e decidir tirar uma lição daquilo ou não, é a razão, e é através dela que moldamos o espírito humano.
E fazemos isso com nosso espírito do mesmo jeito que moldamos nosso corpo: comendo.
É claro que nosso corpo necessita de um conjunto de fatores para ser moldado, não basta comer, ou parar de comer, é necessário exercício físico, musculação e aeróbico. Mas se não começar pelo que comemos, exercício físico acabará por nos prejudicar em vez de ajudar. Com nossa mente, nossa razão, é a mesma coisa, tudo começa pelo que damos para nossa mente com nossa razão absorver, se ela não é alimentada com informações, conhecimento, princípios, valores, fundamentos, não adianta tentar exercitar nossa mente depois, ela estará vazia.
E assim como a vida às vezes nos cobra um preparo físico melhor, ao correr atrás de um ônibus, ao cuidar de crianças, ou subir e descer escadas, a vida também nos cobra, com uma frequência bem maior, preparo mental e espiritual de lidar com as coisas. Pela manhã serão seus filhos teimando em não ir para a escola, depois as leis de trânsito provando ou reprovando sua prudência, depois seu chefe cobrando rendimento de você, seus colegas sendo obstáculo no seu rendimento, sua esposa surtando porque você esqueceu que dia é hoje, no fim do dia o boletim dos filhos, e a notícia que sua filha vai sair com um “cara” que você nem conhece.
Se você sabe o que dar ao seu espírito, terá sabedoria para lidar com “o mal do dia”, mas se você o alimenta mal, ou pouco alimenta, você explodirá com muita frequência pois não tem estrutura para lidar com “o mal do dia”.
Para que sejamos pessoas inteligentes, pessoas sábias, pessoas “boas de conviver”, é necessário ter um espírito humilde, que está sempre pronto para aprender, para receber, em outras palavras um espírito faminto. Sem isso, nos tornamos pessoas, egoístas, egocêntricas, estúpidas, ignorantes, mal caráter.
Uma pessoa que consegue ser sábia, é num certo sentido, espiritual. E aqui existe a necessidade discernir espiritualidade de natureza terrena, e espiritualidade natureza celestial. Como homens todos temos um espírito humano, e mesmo que tenhamos um espírito humano, isso não nos faz celestiais, ao contrário, naturalmente temos um espírito terreno. Em outras palavras, é necessário discernir entre espírito da natureza adâmica, e espírito da natureza divina.
Não é porque algo, ou alguém é “espiritual”, que é divino, pois satanás é espírito, e um espírito demoníaco.
Um conceito sobre o qual irei abordar mais tarde, é que as pessoas tendem a pensar em corpo alma e espírito, separados um dos outros, como se fossem três coisas independentes. Por conta disso confundem espírito, com algo divino e celestial, no entanto a própria Palavra faz distinção entre “espírito” e “Espírito”.
Um homem, é formado de corpo, alma e espírito, e isso independe de ser ele cristão batizado ou não. Nasceu, têm corpo, alma, e espírito. Mas todas as partes deste ser (humano), são terrenas. Isto é desta dimensão material.
Sendo assim, um homem natural, pode ser sim espiritual por que sabe usar da razão se tornando sábio, e ao mesmo tempo ser almatico apreciando uma sinfonia ou estando apaixonado, e carnal tendo prazer sexual. A inteligência e sabedoria não redimem o homem. Não será pelo exagero, nem pela abstinência que o homem será salvo. Não é por seu próprio espírito que ele alcançara os portões dos céus, nem por quanto “sua alma é boa”, que ele convencerá Deus a deixá-lo entrar no paraíso, ou por quanto sujeitou seu próprio corpo.
É pelo amor de Deus, que morreu em nosso lugar, e pela graça, nos concedeu nascermos de novo e receber o Espírito Santo em nós.
Se não nascer de novo, se não receber o Espírito Santo, não tem utilidade para salvação uma pessoa ser “espiritual”, ter “autocontrole”, e ser “saudável”. Tudo será queimado.
E é por isso que o evangelho é para os humildes em espírito, pois alguém que não tenha humilhado o seu espírito, não está pronto para receber tudo que o evangelho tem, e não é capaz de nascer de novo, ou de entrar de baixo do governo de Deus.
Uma pessoa que nasce de novo tem agora o Espírito Santo, e com ele a natureza de Deus, e essa natureza vai lutar dentro dessa pessoa para lapidar o caráter dela à imagem e semelhança da pessoa de Cristo.
E digo lutar, porque o Espírito Santo não irá nos possuir e nos transformar à imagem e semelhança de Cristo, somos nós que temos a responsabilidade de decidir nos tonarmos a imagem de Cristo. O Espírito Santo quer cada centímetro do seu ser, mas eles trabalha com o quanto você dá para ele, e isso inclusive permite que você não entregue nada de si mesmo, ou muito pouco. O que resulta nesses crentes que são batizados no Espírito Santo, mas são piores do que pessoas mundanas que vivem sem Deus. A condenação delas no fim, é duplamente justa.
Lembra-se que falamos a respeito de como a “razão” toca nosso espírito? Não é difícil de perceber que tudo que damos para nossa mente raciocinar vai influenciar em que tipo de obra estamos construindo em nós. Se apenas coisas bobas e divertidas que não oferecem aprendizado ou apenas um nível raso de aprendizado, então seremos igualmente bobos e rasos. Se damos coisas complexas para nossa mente digerir, seremos complexos e profundos, mas se forem complexas, profundas, e terrenas, continuarem apenas espiritualmente limitados ao que é terreno. Mas se damos a nossa mente coisas complexas, profundas e divinas, então edificamos algo eterno em nós.
Não é atoa que a bíblia nos manda “vigiar e orar”, “orar no espírito o tempo todo”, “jejuar e mortificar a nossa carne”. Assim como é o Jejum para nossa carne, é a oração para nossa alma, e a bíblia para nosso espírito. São atitudes que mortificam nossa natureza adâmica, para que a natureza divina seja edificada em nós, nos transforme, e nos torne maduros e capacitados para viver e fazer a vontade de Deus, e depois alcancemos a vida eterna.



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